sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Eire

Canção de Ninar

Quero lhe dar

O dia mais feliz

Cantar-te manhã

Dourada de luz

E este dia nunca

Acabar-se-á

E enfeitarei a noite

Com a luz do luar

-Variação sobre Saint Säel, Sinfonia para órgão.

Descia o sol nos campos de Green Meadows. Meus olhos e os seus, ligados numa fugaz eternidade, na qual nossas almas, presas uma à outra, foram afinal libertas. Dançávamos como crianças, a rodopiar. Seus cabelos louros e seus olhos da cor do mel, seu vestido de renda desbotado, suas mãos, suaves como as de uma dama, pequenas como as de uma criança, que eram quentes a meu toque. Seus braços esticados em minha direção. Sua expressão de infinda alegria. Seu riso, como o cantar de mil anjos numa melodia tão serena quanto a neblina de Londres e tão impactante quanto o correr do Tamisa. Lembro-me de tudo como se tivesse sido ainda hoje, e, acima de qualquer outra coisa, lembro-me de seu olhar. A seus olhos, em seus olhos, eu era muito mais do que meramente eu. Eu era alguém para ela. É como se num momento se encerrasse, não como num fechamento, mas como num belíssimo embrulho vermelho com laço de cetim amarelo, toda a minha vida. Pouco antes de fazer-se o crepúsculo, eu, sem distinguir o meu eu daquele momento, sentindo-me completo e absurdamente feliz, fiz algo de que me arrependo. Tal qual Loki, contemplei o paraíso e o senti queimar em mim, como chama e não brasa, e o apaguei. Esta é a minha história.

Trova à amada Primavera

Agora é o mês de Maio

E brincam os rapazes

Com fitas de cetim

Sobre a grama a dançar

Primavera, jovial

Ri do Inverno jururu

E ao som de gaitas mil

Ninfas dançam a motejar

Porque parar, então,

E a juventude ver passar?

Alvas ninfas a dizer:

Brinquemos de esconder

-Now is the Month of Maying, MORLEY,Thomas..

Nasci em Eire. Bom católico, juro. Com toda a culpa e o moralismo que acompanham os sacramentos religiosos. Soa ruim, mas eu amava tudo aquilo. Eu era melhor que os meninos de rua. Eu podia olhar para eles com ares de superioridade e desprezo, e, ah! Como isso preenchia a minha alma. Orgulho, pecado capital? Jamais, se eu era, de fato, melhor que eles, não era errado eu me sentir assim. Afinal, era a verdade. Se eu me humilhasse, estaria mentindo, e a mentira que é errada, não o meu sentimento justo.

Mas em Eire. Boa família, se é que se possa dizê-lo de irlandeses, pai comerciante - completamente honesto, até onde um comerciante podia ser –, mãe severa e amável. Ah, como eu amava minha mãe. Seu avental, seus cabelos negros, seus olhos verdes, sua voz. Sempre pronta a ensinar. Minha educação veio mais das freiras do internato do que de minha mãe, pra ser sincero, mas mãe é mãe. Até mesmo mães irlandesas que não sabiam cozinhar muito bem e sempre exageravam no alho.

Minha mãe morreu quando eu tinha 12 anos. Não a vi morrer. Em um fatídico mês de Maio, despedi-me da beleza sem par da primavera de Dublin pra voltar à minha família. Ou parte dela. Pai disse que não queria me contar através de uma mera carta. Não sei se ele estava certo. Fiquei triste por não poder me despedir de minha mãe uma última vez.

Aquela foi a primeira primavera do fim da minha infância. Flores roxas cobriam a grama e seu aroma me enojava. O vento úmido profetizava a chuva, mas não me importei. Sentei embaixo da única árvore em nossa propriedade que não dava flores. Ali permaneci até contentar-me com o fato de que minha mãe não me chamaria para dentro. Lembro-me de pegar um resfriado. Fiquei dentro de casa por alguns dias. Até percebi uma movimentação estranha na propriedade ao lado (não eram propriedades grandes o bastante para que se pudesse ignorar os vizinhos), mas, de que importava? Se não era minha mãe voltando do Seol numa carroça, eu não dava a mínima.

Alva

Hemos nós de incursar

Adentrar um mundo novo

Hemos nós de então marchar

Rumo aos tesouros

Do mundo que se encerra

Na magia de Espalera

Marchai, Marchai

Cantai, Cantai

Pisai as flores e a relva

Pisai as flores e a relva

Desbravai os antros

Ao som dos mil prantos

Marchai, Marchai

Cantai, Cantai

Pisai as flores e a relva

Pisai as flores e a relva

Para então poder voltar

A quem muito nos quer amar

-Canto de guerra. SEYANIAN, Zephyr.

Cerca de uma semana após eu me recuperar da febre e do cansaço, permanecia em casa. As férias estavam para acabar, mas eu não queria ir. Tampouco queria ficar, mas ficar requeria menos esforço. Ficar significava que eu não precisava continuar com a minha vida. Eu não precisava mudar. Seria como se mamãe ainda estivesse lá, apenas de cama e eu a esperar. “Foi por isso que ela não me buscou na chuva”. Assim, eu tinha segurança. Assim, eu podia (ainda que sofrendo) descansar.

Mas nem mesmo a primavera poderia me trazer paz. Nem mesmo as flores que eu amara, os pássaros com quem cantara e a verde relva com seu aroma sem par. Não, nada naquela natureza, naquela casa, nada conhecido poderia me trazer paz. E, como se os espíritos rissem da minha cara, alguém bate na minha porta. Meu pai me manda atender. A mim. Eu, que não encontro luz, paz ou descanso. Eu, que há muitos dias não punha a cara para fora de nossa casa com cheiro de cedro mofado, tinha que atender um completo estranho. A injustiça de tudo aquilo me corroia. Que pessoa horrível poderia ser tão egoísta ao ponto de perturbar um pobre menino em luto?

Aparentemente, minha ira direcionada a quem estava a bater levou algum tempo para ser consumada, pois à porta batia novamente, e ouvi uma grave voz feminina chamar, “Alguém em casa?”

Atendi. Era uma senhora altiva, usava um vestido azul com um chapéu combinado. Tinha um nariz grande e é essa a melhor descrição que eu lhe posso dar porque com sua mão segurava algo que me distraiu sobremaneira. Era como se ela fosse uma feiticeira que tomou a lua pelo seu alvo e delicado braço e veio então me chamar. Aquela senhora poderia ter dito qualquer coisa naquele momento, e sinceramente não sei o que foi dito. Eu, boquiaberto, acenei afirmativamente para os sons bizarros emitidos por uma criatura a qual não mais era digna de minha atenção, porquanto meus olhos contemplavam beleza que, pensei com meus botões, tinha que ser sobrenatural. A velha, ou qualquer coisa assim, largou daquela criatura magnífica e foi guiada por seu criado até uma carruagem. Juro por São Jerônimo, que a lua, a lua feita pessoa, sorriu para mim.

Colocava seus braços à frente de seu corpo, seu braço esquerdo segurando seu braço direito, e sorria. Aquele sorriso foi melhor do que 50 primaveras e 500 flores. Aquela bela menina loura de olhos de um castanho claríssimo, com um nariz impecável, digno de uma dríade, da pele mais clara e de orelhas um pouco exageradas, aquela foi a razão pela qual eu haveria logo de sair de casa.

Meu pai, percebendo que eu não estava bem a par da situação e a garota continuava do lado de fora, veio à porta e disse, “Bem-vinda ao nosso lar! Esperamos que você aproveite sua estadia.” De fato a menina tinha ao seu lado uma mala que aparentava ser pesada demais para que ela carregasse sozinha, mas como eu teria percebido isso antes? Eu estava ocupado demais contemplando a mais bela obra-prima de Deus. Liguei os pontos: A mulher de azul era minha nova vizinha rica e a menina era sua filha, que deveria permanecer conosco durante uma viagem de sua mãe a... Qualquer lugar. A menina não pôde ir por... Qualquer razão. Mas ela estava aqui. Quem era ela? Por que conosco? Não entendi. Mas nem precisava entender. De imediato, ofereci-me para tomar a sua mala e levá-la para dentro. Ela haveria de ficar num quarto que sobrava, e ficaria sob os cuidados da empregada, Srta. Howley.

Breve

Sim, hei eu de morrer

À visão da bela boca

Da amada de meu coração

Sim, quero eu morrer

À visão dos belos lábios

De meu amor verdadeiro

Ai, boca! Ai, beijos!

Ai, sussurros! Ai, palavras!

Ai, vida que me aviva!

-Si Ch’io Vorrei Morire, MONTEVERDI, Claudio.

. Depois de colocar as malas para dentro, parei. Travei como quando descobri da morte de minha mãe, mas dessa vez foi muito diferente. Eu parei pra imaginar o que eu teria feito para merecer aquilo. Será que o deus que matou minha mãe era o mesmo que punha em minha casa a sua mais bela criação? Será que eu deveria sentir-me culpado por não merecer tal bênção? Eu não entendia nada daquilo, mas por mais que eu tentasse sentir-me culpado, eu só sentia calor e alegria. Talvez algo mui próximo do que hoje chamam de amor.

No dia seguinte, a vi logo depois de acordar. É como se o botão de rosa a desabrochar fosse infinitamente mais belo do que o mesmo em sua plenitude. Parei no lugar. “Bom dia”, disse, um pouco tímido. “Bom dia...”, disse-me ela, com voz preguiçosa, quase como um ronronar. Ah, que bela voz. Tomamos o café. Bem, ela tomou o café e eu a assisti tomar o café. Foi um bom café. Logo depois, ofereci-me (donde tirei coragem pra fazer todas essas coisas, eu não sei) para mostrar a ela nossa pequena propriedade. Menor do que a dela, de qualquer jeito. Mostrei a ela minha árvore favorita e meu fútil conhecimento de cada inseto por ali. Ela sorria a cada nova descrição que eu dava sobre os ‘bichinhos de seis patas’, e isso me motivava a continuar. Se eu tivesse que inventar qualquer coisa sobre qualquer animal para fazê-la sorrir, fa-lo-ia de bom grado. Acho que eu falava demais sobre os insetos. Enquanto eu falava sobre besouros, ela me parou e apontou ao ponto mais alto da planície. Sim, era uma planície com um ponto alto. Não era muito alto, por isso era uma planície, mas o chão coberto de grama era às vezes acidentado. De fato, a propriedade de mau pai tinha o pior terreno de todas as propriedades vizinhas, o que acabou compensando quando fomos os dois sentar-nos debaixo da árvore que havia logo atrás do estábulo. Não tão logo para que chegar lá não fosse nada difícil, mas fui grato a Deus pela dificuldade dela em alguns pontos, nos quais ela segurou a minha mão para se apoiar.

Era uma macieira. Nossos cavalos gostavam de maçãs, acho eu. Não sei ao certo, meu irmão que cuidava mais dos animais. Mas quando ofereci uma a Trovão (nome que inventei para um dos cavalos na hora para exibir meu conhecimento e intimidade com toda a natureza) ele a comeu sem hesitar. E eu acho que aquele cavalo, o qual eu não reconhecia, não me conhecia também. Então ele devia gostar muito de maçãs.

Mas a árvore. Dei uma maçã a Aurora (o nome da menina, bem que eu poderia tê-lo mencionado antes) e sentamo-nos para comê-la. Aquele cavalo estranho se aproximou, como que querendo brincar. Eu precisava fingir que eu sabia quem era aquele cavalo ou o que ele fazia ali, então falei para Aurora, “Dá-lhe uma maçã. Ele há de gostar”. Deu certo e ninguém perdeu um braço, e estávamos a sós, eu, a menina mais linda do mundo, e um cavalo estranho. Dei um pouco de carinho no cavalo e tentei fazer com que ele se afastasse. Quando me dei conta, Aurora não estava lá. Chamei seu nome, com um tom de desespero, e ninguém respondeu. Quando comecei a ficar preocupado de verdade ela pula de trás da macieira para me assustar com um grito. Eu devo admitir que eu me assustei de verdade. Deve ter demorado alguns segundos pra eu me recuperar do susto, pois ela perguntou, “Você está bem?” e eu disse, “Vai ter volta!” e então a brincadeira de gato e rato. Escrevendo como uma história soa idiota, mas eu fiquei genuinamente feliz. Então, eu fiz a pior coisa que eu jamais poderia ter feito. Tentei beijá-la. Ela, a menina que eu havia acabado de conhecer. Era surreal. Conforme meus lábios se aproximavam dos seus, tinha uma sensação quente de que tudo então daria certo. Mas ela se afastou. Disse alguma coisa sobre ser nova demais para sair beijando caras por aí. Eu disse, “Mas eu te amo!”, e ela sorriu. Não era um sorriso como os outros, era como se ela risse da minha situação patética. Percebendo como eu estava envergonhado, ela tomou a minha mão e disse, “Eu gosto de você. A gente vai ficar bem.” E recosta-se em meu peito para descansar.

Abro os olhos. Olho para o meu lado e lá está ela, 50 anos, quatro filhos e nove netos depois, recostada em meu peito. E eu simplesmente sinto em meu coração que, mesmo que às vezes eu faça besteiras, vai ficar tudo bem.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Insomnia

Não dormi.
Era aquela você?
A moça,
Perdida,
Na rua,
Era aquela você?

Sorria,
Parada,
Com olhos que dançam de alegria?

Não sei.
Mas era.

Se não você,
senão você,
não era eu.
Pois que hei,
sem ti,
que sou,
sem teu?

E havia como hei,
E via como vejo
Teus lábios rosados,
Teus olhos saltados,
Teus pés, meio virados
Para o lado de cá.

Cá não há, não sem ti.
Não sem ti em mim: Não há mim sem ti.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Poeminha de momento II

às vezes a musa vem atropelando a concentração molar do soluto... E, de repente, as aulas de química tornam-se um culto à menina que senta lá do outro lado... Diacho.

oh well, here it goes...

"Merda Sentimental em mi baixo"

Sobre teu rosto, postas por Deus,
Marcas d'amor.
Perco-me, pois, nos olhos teus,
Clamo de dor.

Com meus ouvidos, ouço tua voz
Que ressôa e ecôa.
Causa-me dor, aguda, atròz,
Não sai, não perdôa.

Continuas aqui, e te ouço, atento,
Ouço tuas notas.
Viro, então, pra onde sopra o vento,
Nunca me notas.

Quão desejável me é o sofrer,
Pois sôfro por ti.
Continuo, então, até entender
Tal gôzo sem fim.

Sobre teu rosto, posta por Deus,
belêza sem par.
Ouvia falar se Seu amor pelos seus,
Ver-te faz-mo acreditar.

Mais que bela, és bendita
Perfeita és, sim.
E a belêza em mim ressucitas,
Perfeita és pra mim.

Poeminha de momento

tá bom, eis o que escrevi durante o blecaute... Bom não ficou, ficou bem ruinzinho... Mas os primeiros passos sempre dóem os joelhos...

(cinco sílabas poéticas ruleiam \o/)

Teu nome possui
Meu pensamento
Só, saio e choro
Sim, no relento

Que venha a chuva
Venham os ventos
Que levem co' eles
Os meus tormentos

Mas pode levar,
a chuva ou o vento,
Esse meu pesar
Que, fraco, agüento?

Não, minha amada.
Não nessa vida.
Tu és meu bálsamo
Na triste lida.

És também ópio
Meu vício outrossim
Enche-me do ódio
E de amor sem fim.

Odeio o mundo
Que nos separa
Amo-te, mudo,
Desde a sacada.

Pensando em você
Querendo te ver.
Pensando em te ver,
Querendo você.

Black out

Quem diria que tudo o que era necessário para recomeçar a escrever seria um blecaute... Tantos sonetos jogados fora, algumas trovas queimadas, muitos contos 'excluídos'; nada resta do tempo no qual eu tinha o objetivo de tornar-me um escritor... Nada além de memórias nebulosas...
Mas eu posso escrever só por diversão, não posso? Começar de novo, a partir daquele delicioso momento em que houve silêncio... E eu pude ficar a sós comigo mesmo... Deu pra pôr a mente para trabalhar, me acostumar novamente com o delicioso som do lápis rabiscando no papel, tão superior ao tectec do teclado e do cliqueclique do rato... O que eu escrevi durante o blecaute é irrelevante. Foi como se eu tivesse nascido de novo, como se aquele fosse o meu primeiro texto e depois dele o meu primeiro poema, cheio de vontade, mas sem muito conquistar... Ainda assim, uma vitória retumbante sobre o ócio, contra o qual lutamos desde que começa a cultura.
Porquanto escrevo, leiamos.